De niño no me gustava
los livros ni la sotana
ni salir en procesión.
Era tan desobediente
como el viento de poniente
revoltoso y juguetón.
Yo invérs de mirar para el cielo
me puse a medir el suelo
que me tocava de andar.
Y no seguia al rebaño
porque ni el pastor ni el amo
eram gente de fiar.
Empezé haciendo carreira
por atajo riberea
muy estrechos para mí.
Y decia mi vecino
que llevava mal camino
apartado del revino.
Como aquel al que casa outorga
y aunque la ignorancia es sorda
pude levantar la voz:
mas fuerte que los ladridos
de un pero consentido
y que la voz del pastor.
Siempre fui esta oveja negra
que supo esquivar las piedras
que me atirava narda.
Y mientras mas pasan los años
mas me aparto del rebaño
porque no se adonde van.
domingo, 4 de janeiro de 2009
ESPANHA - Clarice Lispector
“Quase não era canto, no sentido em que este é aproveitamento musical da voz. Quase não era voz, no sentido em que esta tende a dizer palavras. O canto flamenco é antes da voz ainda, é fôlego humano. Uma palavra ou outra às vezes escapava, revelando de que era feita aquela mudez cantada: de história de viver, amar e morrer. Essas três palavras não ditas eram interrompidas por lamentos e modulações. Modulações de fôlego, primeiro estágio de voz que capta o sofrimento no seu primeiro estágio de gemido. E de grito. E mais outro grito, este de alegria por se ter gritado. Em torno, a assistência aconchega-se escura e suja. Depois de uma das modulações que de tão prolongada morre em suspiro, o grupo esgotado como o cantor murmura um Olé em amém, última brasa.
Mas há também o canto impaciente que a voz apenas não exprime: então um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o Olé que o irrompe a cada instante não é mais amém, é incitamento, é touro negro. O cantor, de dentes quase cerrados, dá à voz a cegueira da raça, mas os outros exigem mais e mais, até conseguirem o instante espasmo: Espanha.
Ouvi também o canto ausente. É feito de um silêncio cortado de gritos da assistência. Dentro da clareira de silêncio, em semente ardente, um homem pequeno, seco, escuro, de mãos nas ilhargas, cabeça atirada para trás, marca com o duro taco dos sapatos o ritmo incessante do canto ausente. Nenhuma música. E nem é uma dança. O sapateado é antes da dança organizada – é o corpo manifestando-se, pés transmitindo até a ira em linguagem que Espanha entende. A assistência se concentra em fúria no próprio silêncio. De quando em quando a provocação rouca de uma cigana, toda de carvão e trapos vermelhos, em que a fome se tornou dor e ameaça. Não era espetáculo, não se assistia: quem ouvia era tão essencial como quem batia os pés em silêncio. Até a exaustão, comunicam-se durante horas através dessa linguagem que, se algum dia teve palavras, estas foram se perdendo pelos séculos – até que a tradição oral passou a ser transmitida de pai para filho apenas como ímpeto de sangue.
E vi o par da dança flamenca. Não sei de outra em que a rivalidade entre homem e mulher se pusesse tão a nu. Tão declarada é a guerra que não importam os ardis: por momentos a mulher se torna quase masculina, e o homem a olha admirado. Se o mouro em terra espanhola é o mouro, a moura perdeu diante da aspereza basca a moleza fácil; a moura espanhola é um galo até que o amor a transforme em Maja.
A conquista difícil nessa dança. Enquanto o dançarino fala com os pés teimosos, a dançarina percorrerá a aura do próprio corpo com as mãos em ventarola: assim ela se imanta, assim ela se prepara para tornar-se tocável e intocável. Mas, quando menos se espera, sua botina de mulher avançara e marcará de súbito três pancadas. O dançarino se arrepia diante dessa crua palavra, recua, imobiliza-se. Há um silêncio de dança. Aos poucos o homem ergue de novo os braços e, precavido – com temor e não pudor -, tenta com as mãos espalmadas sombrear a cabeça orgulhosa da companheira. Rodeia-a várias vezes e por momentos já se expões quase de costas para ela, arriscando-se quem sabe a que punhalada. E se não foi apunhalado é que a dançarina de súbito recolheu-lhe a coragem: este então é o seu homem. Ela bate os pés, de cabeça erguida, em primeiro grito de amor: finalmente encontrou seu companheiro e inimigo. Os dois recuam eriçados. Reconheceram-se. Eles se amam.
A dança propriamente dita se inicia. O homem é moreno, miúdo; obstinado. Ela é severa e perigosa. Seus cabelos foram esticados, essa vaidade da dureza. É tão essencial essa dança que mal se compreende que a vida continue depois dela: este homem e esta mulher morrerão. Outras danças são a nostalgia dessa coragem. Esta dança é a coragem. Outras danças são alegres. A alegria desta é séria. Ou a alegria é dispensada. É o triunfo mortal de viver o que importa. Os dois não riem, não se perdoam. Compreendem-se? Nunca pensaram em se compreender, cada um trouxe a si mesmo como único estandarte. E quem foi vencido – nessa dança os dois são vencidos – não se adoçará na submissão, terá aqueles olhos espanhóis, secos de amor e raiva. O esmagado – os dois serão esmagados – servirá vinho ao outro como um escravo. Embora nesse vinho, quando vier a paixão do ciúme, possa estar o veneno da morte. O que sobreviver se sentirá vingado. Mas para sempre sozinho. Porque só esta mulher era sua inimiga, só este homem era seu inimigo, e eles se tinham escolhido para a dança."
Mas há também o canto impaciente que a voz apenas não exprime: então um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o Olé que o irrompe a cada instante não é mais amém, é incitamento, é touro negro. O cantor, de dentes quase cerrados, dá à voz a cegueira da raça, mas os outros exigem mais e mais, até conseguirem o instante espasmo: Espanha.
Ouvi também o canto ausente. É feito de um silêncio cortado de gritos da assistência. Dentro da clareira de silêncio, em semente ardente, um homem pequeno, seco, escuro, de mãos nas ilhargas, cabeça atirada para trás, marca com o duro taco dos sapatos o ritmo incessante do canto ausente. Nenhuma música. E nem é uma dança. O sapateado é antes da dança organizada – é o corpo manifestando-se, pés transmitindo até a ira em linguagem que Espanha entende. A assistência se concentra em fúria no próprio silêncio. De quando em quando a provocação rouca de uma cigana, toda de carvão e trapos vermelhos, em que a fome se tornou dor e ameaça. Não era espetáculo, não se assistia: quem ouvia era tão essencial como quem batia os pés em silêncio. Até a exaustão, comunicam-se durante horas através dessa linguagem que, se algum dia teve palavras, estas foram se perdendo pelos séculos – até que a tradição oral passou a ser transmitida de pai para filho apenas como ímpeto de sangue.
E vi o par da dança flamenca. Não sei de outra em que a rivalidade entre homem e mulher se pusesse tão a nu. Tão declarada é a guerra que não importam os ardis: por momentos a mulher se torna quase masculina, e o homem a olha admirado. Se o mouro em terra espanhola é o mouro, a moura perdeu diante da aspereza basca a moleza fácil; a moura espanhola é um galo até que o amor a transforme em Maja.
A conquista difícil nessa dança. Enquanto o dançarino fala com os pés teimosos, a dançarina percorrerá a aura do próprio corpo com as mãos em ventarola: assim ela se imanta, assim ela se prepara para tornar-se tocável e intocável. Mas, quando menos se espera, sua botina de mulher avançara e marcará de súbito três pancadas. O dançarino se arrepia diante dessa crua palavra, recua, imobiliza-se. Há um silêncio de dança. Aos poucos o homem ergue de novo os braços e, precavido – com temor e não pudor -, tenta com as mãos espalmadas sombrear a cabeça orgulhosa da companheira. Rodeia-a várias vezes e por momentos já se expões quase de costas para ela, arriscando-se quem sabe a que punhalada. E se não foi apunhalado é que a dançarina de súbito recolheu-lhe a coragem: este então é o seu homem. Ela bate os pés, de cabeça erguida, em primeiro grito de amor: finalmente encontrou seu companheiro e inimigo. Os dois recuam eriçados. Reconheceram-se. Eles se amam.
A dança propriamente dita se inicia. O homem é moreno, miúdo; obstinado. Ela é severa e perigosa. Seus cabelos foram esticados, essa vaidade da dureza. É tão essencial essa dança que mal se compreende que a vida continue depois dela: este homem e esta mulher morrerão. Outras danças são a nostalgia dessa coragem. Esta dança é a coragem. Outras danças são alegres. A alegria desta é séria. Ou a alegria é dispensada. É o triunfo mortal de viver o que importa. Os dois não riem, não se perdoam. Compreendem-se? Nunca pensaram em se compreender, cada um trouxe a si mesmo como único estandarte. E quem foi vencido – nessa dança os dois são vencidos – não se adoçará na submissão, terá aqueles olhos espanhóis, secos de amor e raiva. O esmagado – os dois serão esmagados – servirá vinho ao outro como um escravo. Embora nesse vinho, quando vier a paixão do ciúme, possa estar o veneno da morte. O que sobreviver se sentirá vingado. Mas para sempre sozinho. Porque só esta mulher era sua inimiga, só este homem era seu inimigo, e eles se tinham escolhido para a dança."
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
SOBRE O ESPETÁCULO "CAMINO" - Por Adriana Melo
Gostaria de parabenizar todos os integrantes que fizeram parte do espetáculo de dança "Camino" dirigido por Roberta Campos, professora de Flamenco e Dança Árabe.
O que vi foram danças lindas, coreografias maravilhosas assim como todo o contexto do show que foi apresentado. Começando com a demonstração de imagens e de filmes clássicos como Latcho Drom. Depois, iniciando o primeiro ato, veio um maravilhoso número de Dança Árabe, com Roberta e sua aluna, que a mim causou fascínio pela beleza e delicadeza.
Depois vieram mais e mais danças no estilo árabe. Roberta solou algumas vezes entre as apresentações de suas aprendizes, fazendo um belíssimo ‘Said’ (dança com a Bengala) e um solo de’ Derbak’, com a participação do conceituado músico Ives Soeiro, encerrando o primeiro ato.
Um belíssimo solo do músico Gustavo Menezes deu inicio ao segundo ato, trazendo a força e firmeza do flamenco, o que ocasionou um contraste muito feliz entre a delicadeza da dança árabe. Entre os músicos estavam, Otto Bruno, Ricardo Cathala e Gustavo Menezes músicos que deram show como sempre com suas guitarras. E com eles, Mariana Marin tocando Cajón e cantando com sua voz doce e delicada.
No corpo de baile, Presentación Gonzalez, Laura Pacheco, a própria Roberta Campos e suas pupilas.
Iniciando com a Roberta, depois as pequenas notáveis dançaram - lindas alunas que dançaram como gente grande – em seguida, a Laura Pacheco com sua firmeza de sempre, linda Laura, e Presentación, que me emociona, (ela sabe disso) rs, e arranca sempre "olés" meus e de quem a vê. Com algumas mais apresentações, veio o término do espetáculo, que a mim agradou muito, e acredito que a todos que presenciaram.
Parabéns!
Adriana Melo é envolvida com a dança cigana e aluna de flamenco.
Carta recebida por Farrucos Centro Flamenco.
Envie seu texto e crítica para Farruco-s@hotmail.com
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
CINE PASIÓN DIA 14 DE NOVEMBRO COM "BODAS DE SANGRE" DE CARLOS SAURA

Nessa sexta-feira, dia 14 de novembro, acontece a segunda edição do projeto "CINE PASIÓN", uma parceria da Farrucos com o Café & Cognac.
Com o objetivo de difundir a arte flamenca, o projeto conta com um mine-palestra, mesa redonda e exposição de filmes. Nessa segunda edição será "Bodas de Sangre" do espanhol Carlos Saura.
O Cine Pasión acontece no Café & Cognac (Rua Fonte do Boi, Rio Vermelho) e tem início às 20hs.
Valor: R$ 5,00 por pessoa
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
SER FLAMENCO - Tomás Borrás - 1906
"Ser flamenco es tener otra carne,
alma, pasiones, otra piel,
otros instintos, deseos,
es tener otra visión del mundo,
con el sentido de lo grande,
el destino en la conciencia,
la música en los nervios,
la fuerza independiente,
la alegría con lágrimas
y el dolor, la vida y el amor que marcan.
Ser flamenco es odiar la rutina y el método que castran;
quiere decir sumergirse en el canto, en el vino y en los besos.
Transformar la vida en un arte sutil,
caprichosa y libre,
sin aceptar las cadenas de la mediocridad,
jugarse todo en una apuesta.
¡Gustarse, darse, sentirse, vivir¡
¡Esto!"
alma, pasiones, otra piel,
otros instintos, deseos,
es tener otra visión del mundo,
con el sentido de lo grande,
el destino en la conciencia,
la música en los nervios,
la fuerza independiente,
la alegría con lágrimas
y el dolor, la vida y el amor que marcan.
Ser flamenco es odiar la rutina y el método que castran;
quiere decir sumergirse en el canto, en el vino y en los besos.
Transformar la vida en un arte sutil,
caprichosa y libre,
sin aceptar las cadenas de la mediocridad,
jugarse todo en una apuesta.
¡Gustarse, darse, sentirse, vivir¡
¡Esto!"
terça-feira, 7 de outubro de 2008
PARA MÁRCIA, NO EMBALO DAS NUVENS, POR CLÁUDIO NOGUEIRA
Márcia Rodrigues tinha olhos de Capitu.
Mas o sorriso meigo escondia a devoradora de tarefas.
Gostava da vida. Como gostava! Do mar, de conhecer terras estranhas, pessoas diferentes.
Sua delicadeza era lousã, mas sua força inquebrantável.
Não costuma ser fácil a relação entre o diretor de um veículo de comunicação e o(a) responsável pela área de publicidade do Governo.
É da natureza dessas relações que hajam atritos.
Com Márcia, esses atritos, que houveram, sempre foram embalados
em delicadeza e muita, mas muita, sinceridade.
Vita, (depois João Paulo) lá, ela ali. Tão diferentes. Tão complementares.
Guardo dela os reflexos riscados da persiana de sua sala na Agecom sobre seu rosto.
Claro/escuro, como eu percebia sua alma.
Guardo dela a esperança e a fé na cura.
Guardo dela a última viagem coincidente no mesmo avião, de São Paulo para Salvador.
Fim de tarde, quase anoitecer. Seus olhos de Capitu na janela, refletindo os raios laranjas de sol nas nuvens.
Nuvens, colchões de seus sonhos, pontos de interrogação em seu futuro.
Que as nuvens te embalem, Marcinha.
Cláudio Nogueira
Diretor da Band Bahia
A "FARRUCOS" se une aos amigos e parentes de MARCIA para lamentar a sua perda. Os aplausos que te foram oferecidos em sua última reunião de amigos, no entanto, expressaram toda a admiração que todos sentimos por você. Obrigada Marcia, pela força que nos deu.....
Mas o sorriso meigo escondia a devoradora de tarefas.
Gostava da vida. Como gostava! Do mar, de conhecer terras estranhas, pessoas diferentes.
Sua delicadeza era lousã, mas sua força inquebrantável.
Não costuma ser fácil a relação entre o diretor de um veículo de comunicação e o(a) responsável pela área de publicidade do Governo.
É da natureza dessas relações que hajam atritos.
Com Márcia, esses atritos, que houveram, sempre foram embalados
em delicadeza e muita, mas muita, sinceridade.
Vita, (depois João Paulo) lá, ela ali. Tão diferentes. Tão complementares.
Guardo dela os reflexos riscados da persiana de sua sala na Agecom sobre seu rosto.
Claro/escuro, como eu percebia sua alma.
Guardo dela a esperança e a fé na cura.
Guardo dela a última viagem coincidente no mesmo avião, de São Paulo para Salvador.
Fim de tarde, quase anoitecer. Seus olhos de Capitu na janela, refletindo os raios laranjas de sol nas nuvens.
Nuvens, colchões de seus sonhos, pontos de interrogação em seu futuro.
Que as nuvens te embalem, Marcinha.
Cláudio Nogueira
Diretor da Band Bahia
A "FARRUCOS" se une aos amigos e parentes de MARCIA para lamentar a sua perda. Os aplausos que te foram oferecidos em sua última reunião de amigos, no entanto, expressaram toda a admiração que todos sentimos por você. Obrigada Marcia, pela força que nos deu.....
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